terça-feira, setembro 19, 2006

ELOS ENTRE GALVEZ E CHICO MENDES















À esquerda, a escola de Galvez, construída em Porto Acre no início do século passado, a primeira instituição de ensino do Acre.

À direita, a escola de Chico Mendes, construída no Seringal Nazaré, em Xapuri, cem anos depois, a primeira escola de alfabetização de seringueiros.


Visita ao cenários das gravações

Fui ontem à cidade cenográfica construída para a minissérie "Amazônia: de Galvez a Chico Mendes" de autoria de Glória Perez e dirigida por Marcos Schechtman, a uma hora de Rio Branco, No Acre. Assisti, ao vivo e a cores, o episódio no qual Galvez, expulso pelos seringalistas é reconduzido ao cargo. Ele volta aplaudido por ambos, seringueiros e seringalistas, e foi essa a cena que eu vi ser gravada. Memorável!

A cidade foi construída com todo cuidado. Os detalhes são perfeitos. O espaço vai ficar lá de forma permanente e é a reprodução da Cidade do Acre como deve ter sido durante o tempo em que Galvez dedicou-se a criar uma república independente.

Resgatando a identidade de Galvez

Um dos aspectos que mais me atrai na forma como a Glória Perez está construindo a história da mini-série Amazônia é a reinterpretação da identidade de Galvez e a conexão entre o Acre daquele tempo e o de hoje. Não o hoje de 2006, porque a história vai parar no assassinato de Chico Mendes. Mas o tempo de cem anos que vai da guerra acreana pela borracha ao mundo sem seringais das últimas décadas do século passado.

Lendo sobre Galvez fica-se com a idéia de que ele foi muito mais que um personagem de folhetim. Pode-se até concordar que ele foi um aventureiro por ter realizado uma revolução que certamente era mais dele do que dos outros. Mas não tenho dúvidas de que ele deve ter sido o primeiro de um tipo de visionário que continua existindo nesse pedaço de mundo, que insiste em construir algo mais que um barracão e um posto de cobrança de impostos sobre a borracha.

E a cidade cenográfica materializa essa nova imagem de Galvez. Ali estão os prédios públicos que ele criou ou idealizou: o da escola, da estatística, da polícia, da alfândega, em um momento em que a borracha oriunda do Acre iria fazer toda a diferença na continuidade daquela economia, uma vez que os seringais do Pará e do Amazonas não somente não tinham a mesma produtividade como já estavam bastante esgotados. Bastava colocar nordestinos ignorantes dentro da mata e aviá-los com jabá e conserva importada e ninguém nunca iria se importar com o destino deles. Galvez acabou indo muito mais longe do que o mandato que lhe havia sido conferido pelos seringalistas, foi deposto e convidado a deixar o país.

Cem anos depois

Não dá para não comparar com o que aconteceu cem anos depois, em outro cenário da revolução, Xapuri. Especialmente porque é a educação um dos elos entre os dois momentos. E foram essas imagens que me vieram à mente ao conhecer a cidade de Galvez hoje de manhã.

Em 1981, no meio dos empates contra a Bordon, em Xapuri, Chico Mendes decidiu criar a primeira escola para alfabetizar seringueiros que - desde o tempo de Galvez - haviam continuado cortando seringa sem nunca ter frequentado uma sala de aula.

O Projeto Seringueiro foi uma invenção dele e a escola foi construída na colocação Já Com Fome, rebatizada Independência, no meio do Seringal Nazaré, um dia a pé de Xapuri, dentro da mata ameaçada.

Chico foi marginalizado, desprestigiado, pelas autoridades do seu país, mas seu sonho, já antes idealizado por Galvez, acabou se realizando. Muitas escolas foram criadas desde então e muito mais vem sendo feito em direção a um futuro que tem elos muito fortes com aquele momento que hoje está sendo reconstruído. E que a minissérie vai mostrar.

O impacto da minissérie

Será grande, para o Acre, o impacto dessa minissérie. Já está sendo. As pessoas que estão ali trabalhando como figurantes estão vivendo uma estória que mal e mal conheciam pelos livros. Encontrei um sindicalista amigo do Chico, lá de Xapuri, que estava representando um coronel de barranco, enquanto seu filho e seu pai, eram seringueiros. Todos se sentem parte dessa história que foi entrando na vida deles como ficção mas que os faz conectar o passado ao presente.

Certamente inúmeras idéias de utilização deste cenário já devem estar disponíveis e discutidas. Nada se faz se um plano de futuro, no Acre de Jorge Viana que, com certeza, será também o De Binho Marques.

Ao ver hoje todos aqueles figurantes tão acreanos, me ocorreu uma idéia: reproduzir, todos os anos, naquele lugar, a história da revolução acreana, produzida aqui, como fruto de uma escola de teatro que já nasce com um cenário privilegiado. Uma ópera popular, que poderia começar em Porto Acre e terminar nas ruas de Xapuri.

E assim, todos os anos, o Acre teria motivos para convidar a sociedade brasileira para conhecer uma história inédita. Também poderia convidar aqueles que, no mundo inteiro, ouviram falar da história de Chico Mendes e dos seringueiros e certamente gostariam de ver e conferir o que aconteceu desde então. E tenho certeza de que não sairiam decepcionados com o que está acontecendo por aqui.

4 comentários:

Karina Miotto disse...

Mary, vá em frente!
:)

Victor disse...

Ainda acredito em dias mais justos no Brasil mesmo meio a impunidade,quando vejo verdadeiros brasileiros como você e Chico Mendes que não se calaram diante das injustiças sobre o povo.Parabéns pela bela amizade que teve com ele,pelas oportunidades e o teu amor pela sua causa.

olho de rua disse...

Vc merece cada elogio, D. Mary

Anônimo disse...

Escrevo de Portugal no dia 28 de Janeiro de 2008. Assisto desde o inicio à "Amazónia" que passa no Canal SIC. Foi a mais BRILHANTE mini-série desde sempre, além de extraordinarias intrepertações é o facto de podermos "viajar" no tempo e na historia passada desse País Maravilhoso!!!!

Parabéns a todos a a você Mary Allegretti!!!!!

Mia