sábado, março 10, 2007

CHICO MENDES E PLACIDO DE CASTRO

"Foram os nordestinos, os seringueiros, que se transformaram em soldados, de uma hora para a outra, prá defender, quer dizer, tomar, conquistar essa terra que pertencia aos bolivianos. Eles julgam, por isso, eles se julgam donos da terra, porque foram seus antepassados que lutaram por ela." Entrevista de Chico Mendes a Mary Allegretti, maio de 1981, Rio Branco, Acre.


Assisto com um dia de atraso, no meu computador, aqui em Madison, Wisconsin, a minissérie Amazônia. Apesar de saber que a história da borracha estava mais para bordéis do que para heróis, no começo achei que parecia mais uma novela que um documentário. A fase Galvez não consegui ver direito porque estava de mudança prá cá - ainda vou assistir novamente. Mas a fase Plácido de Castro está realmente impressionante.

A história é muito boa porque vai mostrando os diferentes interesses em torno da borracha. Primeiro, os regionais, do Estado do Amazonas, querendo continuar coletando impostos, não desagradar o governo central e, ao mesmo tempo, financiando os descontentes para assegurar a influência, em qualquer circunstância. Segundo, a posição do governo federal, que é paradigmática: não sabe o que acontece, não quer saber, não se interessa pelo que está na margem e, quando decide fazer algo, interfere sem respeitar o que já foi feito no local, porque o local não existe do ponto de vista do governo central. Pouco mudou desde então, por incrível que pareça. Depois, os seringalistas, estranhos à região tanto quanto os seringueiros, sem outro interesse na disputa com a Bolívia que manter seus seringais, altamente lucrativos, funcionando.
Placido de Castro foi um militar profissional que soube manter sob controle os diferentes interesses para alcançar um objetivo maior, ganhar pelas armas um território que, pelos tratados diplomáticos era da Bolívia e, pela economia, dos brasileiros. Galvez cumpriu a primeira etapa de catalizar a indignação com o Bolivian Syndicate e Placido de Castro fez a guerra. O Tratado de Petrópolis consagrou o acordo pela compra do Acre aos bolivianos, negociação feita pelo Barão do Rio Branco.

É claro que os bolivianos tinham todo o direito formal àquele território, e claro também que não haviam conseguido ocupá-lo de verdade, diferentemente dos brasileiros que, em poucos anos ocuparam toda a bacia. Mas os bolivianos lutaram com heroísmo também e perderam muitos territórios com essa e outras guerras. E a minissérie os trata com respeito, sem caricatura, o que acho louvável.

Os seringueiros, transformados em soldados de um dia para o outro, como descreve Chico na entrevista que fiz com ele em 1981, serão traídos, como Placido. Nada do que foi acertado com eles - o perdão da dívida, a posse definitiva da colocação, a liberdade - será cumprido, promessa que será retomada por Chico quase cem anos depois e que certamente a minissérie vai mostrar.

Acho que o conflito entre índios e seringueiros talvez pudesse estar mais forte na minissérie. Ou talvez eu não tenha visto todas as cenas e isso já foi mostrado. No vale do Acre, em Xapuri, eles foram completamente exterminados e os sobreviventes se refugiaram nos altos rios onde depois foram incorporados à empresa seringalista. Mas não acho suficiente apresentá-los apenas pelas duas figuras femininas Ashaninka, que aliás são historicamente da fronteira com o Peru e não com a Bolívia. Por outro lado, é claro que muitas liberdades criativas são justificáveis e as duas índias estão muito lindas e os Ashaninka, assim como outros grupos indígenas no Acre são de fato grupos muito fortes em suas tradições e dignidade.

A memória desta história ainda estava muito viva nos seringueiros quando comecei minha pesquisa no Acre em 1978. A mobilização que Placido fez dos seringueiros foi em torno dessa idéia de libertar o Acre e, junto, os seringueiros. Mas essses objetivos não foram cumpridos, a não ser quando os seringueiros conseguiram fazer eles mesmos sua própria revolução, na década de 80.

As cenas que mostram a famosa história da corrente sendo limada e os soldados morrendo, um após outro, que eu já havia lido tantas vezes, ficou realmente chocante, principalmente com o hino acreano ao fundo. Eu choro facilmente, mas me emocionei à bessa nessa cena.

Parece tudo muito distante, mas de fato não é. O curso que dou aqui conta essa história e os alunos ficaram as últimas quatro semanas lendo tudo sobre reservas extrativistas e Chico Mendes. É uma pena que não entendam uma palavra de português, caso contrário eu poderia mostrar a eles, ao vivo e a cores, as cenas atualizadas que milhões de brasileiros estão vendo da mesma história que eles estão lendo nos livros e artigos científicos produzidos em inglês. Certamente estarão mais bem informados sobre esses eventos todos do que nossos jovens brasileiros que não estudam esse assunto nas universidades brasileiras.

Heroísmo e traição são duas faces da história acreana, talvez brasileira. Somos capazes de feitos realmente heróicos, tanto no passado quanto no presente, mas vítimas também das mais infames, mesquinhas e grotescas traições.

E é incrível como somos refratários a aprender com nossa própria história. Esse descaso, desconhecimento e ignorância do Brasil com a cultura, os interesses e prioridades dos que vivem nas margens e fronteiras, é hoje tão presente quanto foi no caso da Revolução Acreana.

Como aprender mais sobre nós mesmos, não canso de me perguntar.

segunda-feira, março 05, 2007

Indígena antropólogo







Professor Indígena defende Dissertação de Mestrado na UFPE

A etnomatemática do Povo Taliáseri (os Tariano) do Alto Rio Negro é o tema da dissertação de mestrado de Adão, professor indígena da etnia Tariano que será apresentada dia 5 de março no Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFPE. A pesquisa foi realizada em 2006, entre os detentores de saber, na terra indígena do Rio Negro, no município de São Gabriel da Cachoeira, Estado do Amazonas. O enfoque principal da pesquisa de Adão foi o sistema de numeração e os medidores do tempo visando identificar como os Taliáseri medem, e quais as unidades que marcam a passagem do tempo que gerenciam as atividades cotidianas de subsistência (pesca e agricultura) passando pelas técnicas empíricas e pelos processos cognitivos amplamente praticados por homens e mulheres desse povo indígena. Adão diz que se sente motivado para registrar esses conhecimentos acumulados ao longo dos séculos. "A necessidade de documentar sistematicamente esses saberes é importante não somente para mim, enquanto indígena do clã Mali Makaliapi, educador e acadêmico, mas para a humanidade como um todo."

Adão é bolsista do Programa Internacional de Bolsas da Fundação Ford no Brasil, implementado no Brasil através da Fundação Carlos Chagas, e é um dos quatro professores indígenas que já concluíram a Pós-Graduação em Antropologia nestes últimos anos na UFPE, graças a um Acordo de Cooperação Técnica entre o Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFPE e a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN). Participarão da Banca de Examinadores os professores doutores Renato Athias (Orientador e Presidente da Banca), Maria do Carmo Brandão, examinador titular interno, Antônio Roazzi, examinador externo. e juntamente com o Prof. David O'Brien desenvolveram o projeto pesquisa: Raciocíonio Lógico e Quantificacional entre os índios de Iauareté, da UFPE e da City University of New York através do Convênio de Cooperação Bilateral entre o CNPq e o National Science Foundation (NSF) dos EUA. Fazem parte da banca examinadora como suplentes, a Profa. Judith Hoffnagel, que atuou nos ano oitenta, no Campus da UFPE em São Gabriel da Cachoeira, e o Prof. Carlos Eduardo Monteiro, Diretor do Desenvolvimento de Ensino da PROACAD e coordenador da Comissão de Elaboração do Projeto de Licenciatura Intercultural da Universidade Federal de Pernambuco destinado a formar os 500 professores indígenas do Estado de Pernambuco.

O Prof. Renato Athias, coordenador do Núcleo de Estudos e Pesquisa sobre Etnicidade (NEPE), lugar institucional onde a pesquisa de Adão foi desenvolvida, juntamente com a Associação dos Educadores Indígenas do Distrito de Iauareté (AEDI) está encaminhando projeto para a SECAD, através do Prof. Kleber Gesteira, Coordenador de Apoio as Escolas Indígenas, visando a publicação das dissertações de mestrado defendidas pelos professores indígenas no Programa de Pós-Graduação em Antropologia.
Foto: Maloca do Centro de Estudos e Revitalização da Cultura Indígena de Iauareté (CERCI)

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

ESTRADAS NA AMAZÔNIA




















Um debate sobre estradas na Amazônia foi organizado na Universidade de Yale, dia 17 de fevereiro, sábado passado, pelos alunos da Forestry School. Diferentemente de outros tempos quando só gringos falavam sobre a Amazônia, neste caso a maioria dos expositores eram brasileiros. Fiz a fala inicial recuperando o contexto histórico.

Temos dois modelos clássicos de construção de rodovias na Amazônia, ambos na BR 364. O primeiro é o asfaltamento do trecho ligando Cuiabá, MT a Porto Velho, RO, que deu origem ao Polonoroeste, programa financiado pelo Banco Mundial no início da década de 80 que provocou altas taxas de desmatamento e foi sucedido pelo Planafloro que contribuiu com a criação de áreas protegidas, muitas delas invadidas como mostra estudo recente do Imazon. Este modelo em síntese é o seguinte: estradas são fundamentais para o desenvolvimento; cria-se áreas protegidas para assegurar que nem tudo será destruído, e o que estiver fora destas áreas está livre para exploração, não importa sob quais condições. Outra característica deste modelo é que os padrões de referência e de controle ambiental eram dados - e exigidos - pelo financiador, ou seja, o Banco Mundial.

O segundo modelo é o do Pmaci, o programa criado na metade da década de 80 para controlar o impacto da mesma estrada na sua conexão entre Rondônia e Acre. Financiada pelo Banco Interamericano, também teria provocado alto impacto não tivesse sido objeto de pressão por parte dos movimentos sociais do Acre e dos ambientalistas daqui dos Estados Unidos. O Pmaci previa a criação de áreas protegidas e a demarcação de territórios indígenas. Mas não contemplava a proteção das áreas habitadas dos seringueiros, mudança que acabou sendo aceita pelo BID, mas que não evitou que seu principal defensor, Chico Mendes, fosse assassinado.

Estes dois modelos históricos foram marcados por violência, destruição ambiental, pressões internacionais na transição entre governo militar e democracia no Brasil. E foram caracterizados por alianças entre os que queriam proteção ambiental e justiça social e os bancos multilaterais - ou ao menos pessoas chaves dentro destes bancos - todos exercendo pressões junto ao governo brasileiro.

As pessoas já não lembram dessas histórias e é fundamental contá-las. Até para poder comparar com outro modelo, mais recente, baseado na BR 163, que liga Cuiabá, no MT a Santarém, no PA, tema apresentado por Ane Alencar, geógrafa que faz o doutorado na Universidade da Flórida.

O asfaltamento da BR 364 foi incluído no Avança Brasil de Fernando Henrique Cardoso e resultou de forte pressão dos sojicultores, liderados por Blairo Maggi, de encurtar caminho para exportar o produto. Silos foram construídos pela Cargill e a estrada complementa a infra-estrutura necessária à expansão do agronegócio. Muitos questionamentos foram feitos internamente ao governo e muitos outros surgiram da própria região. Quando Lula assumiu a estrada estava sob grande pressão: pressa de asfaltar, de um lado, e nenhuma medida de proteção do outro. Marina Silva resolveu tranformar a estrada em modelo de gestão de conflitos. Aceitou a proposta preparada pelos movimentos sociais que, por sua vez, aproveitaram a abertura e definiram suas prioridades de forma consistente e detalhada. Áreas protegidas foram criadas, inclusive o primeiro Distrito Florestal do país, mas a estrada ainda não saiu. Diferentemente dos modelos anteriores, as pressões neste caso foram locais, da Amazônia e a resposta veio do governo federal. Mas foram mais de 4 anos de intenso trabalho para se chegar a esse resultado.

Outras análises importantes foram apresentadas.

Maria del Carmen Vera-Diaz, que está fazendo doutorado na Boston University, apresentou sua pesquisa que faz uma simulação de impacto de obras de infra-estrutura (estradas e hidrelétricas) na região da fronteira do Brasil com a Bolívia englobando os estados de Rondônia e Mato Grosso. Ela procurou verificar em que medida estas obras tornam mais competitivas para a soja as áreas sob sua influência. Enquanto as rodovias planejadas para o rio Madeira apresentam impacto limitado, as estradas podem influenciar significativamente a valorização de áreas para expansão da soja. Esse resumo simplifica o trabalho, obviamente, que é muito mais rico, complexo e interessante do que acabei de apresentar.

Idéias que merecem destaque:

- Enquanto as estradas financiadas pelos bancos multilaterais são obrigada a seguir padrões de proteção ambiental e social, inúmeras outras construídas com outras fontes, inclusive do BNDES, não seguem padrão nenhum.

- Ocupados em defender suas áreas específicas, os movimentos sociais na Amazônia não estão cosneguindo dar um passo além e brigar por padrões de referência aplicáveis a todos os casos e não àqueles para os quais conseguem mobilizar esforços e atenção da mídia.

- Estradas federais definem apenas uma parte do problema, os eixos principais; outro grande número de estradas é construído diretamente por agentes econômicos, clandestinos e não, para acesso à madeira, principalmente, ou mesmo como ponta de lança de pequenos posseiros que vão abrindo a fronteira passo a passo.

- Cada instituição do governo federal define suas prioridades em termos de infra-estrutura e não há um órgão sequer que faça uma análise do impacto agregado do conjunto das obras sobre a Amazônia.

BR 319, NÃO!

Enquanto a maior parte dos participantes acha realmente difícil e até inadequado afirmar que as estradas somente trazem impacto ambiental, ressaltando que trazem também muitos benefícios sociais e econômicos para as pessoas que vivem em suas bordas, há um certo consenso de que o ideal seria não abrir novos corredores na Amazônia.

Consenso mesmo, existe em relação à total incoveniência, falta de justificativa e de racionalidade, no asfaltamento da BR 319 ligando Porto Velho a Manaus. Com essa ninguém concorda, com absoluta certeza e isso já foi dito ao governador Eduardo Braga e ao secretário Virgílio Viana. Ficará muito mal na história se eles não conseguirem suspender essas iniciativas enquanto existe tempo. As consequências de um anúncio de asfaltamente já se fazem sentir na região e a especulação já está se agravando. É uma grande responsabilidade e é urgente interromper esse processo com racionalidade e planejamento.

O MODELO DOS MILITARES

É incrível constatar que, 40 anos depois, ainda estamos trabalhando com a mesma matriz de obras de infra-estrutura que foi definida pelos militares. Fernando Henrique revitalizou, renomeou, deu um sentido de integração continental ao mesmo desenho. Intensos debates foram realizados no Ministério do Planejamento em consequência de questionamentos feitos pelo Ministério do Meio Ambiente.

Hoje, as mesmas obras do Avança Brasil são consideradas prioritários pelo governo Lula. É uma incrível capacidade de repetir, não inovar nem repensar o sentido que estas estradas fazem hoje quando estamos no meio de uma pressão resultante de mudanças climáticas e de propostas de políticas que remunerem os serviços ambientais prestados pela floresta.

A lógica, na verdade, é a seguinte: deixa o pessoal questionar, brigar, e enquanto isso as coisas vão se tornando irreversíveis e incontornáveis. E é verdade. Na medida em que cada movimento social precisa se concentrar nos impactos dessas obras sobre suas vidas e seus territórios, ninguém consegue monitorar o grande cenário. E esse, quando descobrirmos, terá se concretizado da mesma maneira como idealizado pelos militares, mesmo que os objetivos não sejam mais o de segurança nacional ou o do vazio demográfico.

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

MANIFESTO DOS ARTISTAS


O manifesto dos artistas em defesa da Amazônia está no site:




Segundo Victor Fasano em apenas 4 dias de funcionamento já tem 3.200 assinaturas.


sábado, fevereiro 03, 2007

CONTRASTES RADICAIS

MADISON, WISCONSIN
Hoje, 4 de fevereiro de 2007, no Brasil estão todos aproveitando as praias, piscinas e o verão - apesar das chuvas. Aqui em Madison está um lindo céu azul, claro e brilhante.

Se olho pela janela do meu apartamento e por cima do meu laptop, chego a pensar que daria para sair de jeans e camiseta, com este sol. Ou com um casaco mais ou menos como os que a gente usa em Curitiba.

Mas quando baixo os olhos mais um pouco e vejo a neve branca cobrindo tudo, intacta, linda e perfeita, ninguém nas ruas, nem carros circulando, tenho que me dar conta de que estou em um ecossistema radicalmente diferente daqueles com os quais me acostumei a viver até hoje.

Madison hoje tem um de seus dias mais frios - MENOS 20 GRAUS centígrados!! Risco de hipotermia se a pessoa não está adequadamente vestida e preparada, como dizem os avisos de risco na internet e na televisão.

Quando tirei a foto acima, com o Red Gym ao fundo, um lindo prédio do final do século 19, na frente do lago Mendota, a neve tinha recém começado e o lago - que se pode ver ao fundo - nem havia ficado congelado ainda desde que o inverno começara, para tristeza dos que gostam de abrir um buraco no gelo para pescar.

A NEVE
A neve é um fenômeno hipnótico para os iniciantes. Pelo menos é a sensação que causa em mim. Não consigo sair da janela, preciso olhar os pedacinhos caindo e a cobertura perfeita que vai deixando por onde passa. Essa perfeição de cor, textura e desenho, me fascina. E neve com céu azul e que não derrete no sol, cria uma paisagem realmente igual à dos cartões postais.
COMPARAÇÃO
O campus, com suas árvores nuas plantadas na neve, ainda estava vazio quando cheguei. É incrível porque de uma semana para a outra tudo muda, os estudantes chegam e ocupam todos os espaços. Quero acompanhar a passagem para a primavera com suas cores típicas, desse mesmo ângulo. É uma passagem muito bem aproveitada por aqui, uma vez que o inverno é realmente longo - começa em novembro e vai até final de março. Ainda tem bastante neve e frio pela frente.

Aqui dentro de casa está quentinho, música clássica tocando, meu computador novo para explorar, aulas para preparar, livros para ler, silêncio completo, tempo de reflexão e reenergização.